Caso de Polícia, mas não de crase.
Dicas do Russo 30/05/2009
A tarde estava monótona para a família brasileira, quando repentinamente um assaltante fez a audiência da televisão. Resolveu, movido por forças ocultas do ibope, estremecer a tarde e a mídia.
Resultado da tragédia: dois mortos. O próprio meliante, misteriosamente asfixiado pelos traseiros de alguns PMs indignados; e a moça professora, inocente vítima dessa quase guerra civil. Isso aconteceu em 12 de junho de 2000 e ficou conhecido como o caso do ônibus 174, transformando-se em documentário dirigido por José Padilha. Pois a Folha de S. Paulo, no dia 15 de junho, mancheteou:
64% preferem ação social a polícia.
Certamente 64% preferem uma coisa a outra, conforme a regência verbal de preferir: Prefiro um pássaro na mão a dois voando. Prefiro política social a simplesmente ação policial.Todos então vimos a preposição (e o episódio pela televisão). No entanto, quem passou pelos bancos escolares sabe que a crase é uma contração, uma combinação de dois As. Além da preposição, precisamos do artigo. No caso em questão não há artigo, logo o A diante de polícia é apenas preposição, portanto sem crase. Pontos para a Folha.
Outra possibilidade seria a seguinte:
64% preferem a ação social à polícia.
Agora sim. Recebido o artigo diante de ação, recebe-se também o artigo, agora combinado com a preposição exigida pela regência de preferir, diante de polícia. Caso de crase, caso de paralelismo – vai artigo aqui, vai artigo lá.
No dia anterior, o caderno Cotidiano trazia o título, em matéria de Elvira Lobato:
Sequestrador sobreviveu a chacina.
Quem sobrevive, sobrevive a alguma coisa. O tal verbo exige a preposição, sem dúvida, mas chacina não pede artigo. Basta substituir por palavra masculina e teremos:
Sequestrador sobreviveu a episódio.
Assim, episódio está sem artigo, o que prova que não é obrigatório o artigo em chacina.
A Folha está dando aulas de crase.
Professor Ricardo Russo
